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terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Au Revoir, France Gall !

France Gall 


Chante, danse Baby pop                             
Comme si demain Baby pop
Ne devais jamais Baby pop
Jamais revenir...

Cante, dance Baby Pop
Como se fosse amanhã Baby Pop
Nunca precise, Baby Pop
Jamais voltar...

( Baby Pop pertence a um álbum homônimo lançado em 1966)


Lembro do ano em que o yé-yé francês fez a minha cabeça. Françoise Hardy e seu álbum de estreia Tous les garçons et les filles; Anna Karina e a trilha sonora de Anna(1967) e France Gall e a sua coletânea homônima lançada em 2001, me instigaram a conhecer mais a fundo outras artistas contemporâneas e a aprender a língua através de filmes e músicas da mesma época. Chabrol e Godard imortalizaram musas incomparáveis como Isabelle Huppert e Anna Karina. Mas dentre toda essa euforia de fã, a artista que culminou sendo a minha preferida e parte da minha playlist após anos e anos foi France Gall. Seus mais de 20 álbuns, variando entre francês,alemão e italiano, identificavam sua versatilidade em termos de estilo musical, e suas mudanças também se deram no visual. France Gall conhece a fama com apenas 16 anos, quando ganha o concurso musical Eurovision com a música Poupée de cire, poupée de son , a música se tornou seu maior hit e já foi regravada pela banda Arcade Fire.  Seu sucesso inicial também é marcado pela forte parceria com o maior ícone clássico da música francesa, o irreverente Serge Gainsbourg. Ao seu lado, France produziu por alguns anos, sucessos como Les Sucettes. Apesar de eu amar todas as canções que o Serge compôs para France, infelizmente, elas  se revelaram uma sátira à inocência e à imagem de Lolita da cantora. Algumas delas possuem sentido ambíguo. Les Sucettes se traduz como Os Pirulitos, e traz uma conotação sexual. Teenie Weenie Boppie versa sobre aventuras com LSD e foi lançada quando France ainda não tinha atingido a maioridade. A francesa se sentiu arrasada após ter uma maior maturidade para entender o conteúdo das letras, porém voltou a contribuir  com Gainsbourg em 1972 em mais uma música, Les petits ballons, presente no álbum Cinq minutes d'amour (meu preferido) que contém  ótimos riffs de rock. 

France Gall com a música "Poupée De Cire, Poupée De Son",
 ganhou o concurso Eurovision representando Luxemburgo (1965)


Françoise Hardy e France Gall


Em 1964, ainda no início de sua carreira, France lançaria o single Laisse Tomber les Filles algo como Deixe as Meninas em Paz, que se tornou referências em filmes como Death Proof, do diretor Quentin Tarantino, numa versão em inglês adaptada por April March e também usada no filme de 1999, But I'm a Cheerleader. Outra versão da música se encontra no álbum No Time For Sorrows da cantora Fabienne Delsol.  



A década de 70 não foi tão brilhante para France quanto a anterior. Seus lançamentos não alcançavam as paradas de sucesso na França, no entanto, quando resolve produzir em alemão, ela se reencontra. Apesar de suas composições serem de autorias alheias, a presença de France Gall, ou para quem não conhece seu verdadeiro nome, Isabelle Geneviève Marie Anne "France" Gall, era hipnotizante devido à sua beleza e a ao seu visual bem demarcado de acordo com o estilo do seu tempo. Sua influência pode ser encontrada em artistas como Rita Lee. Sua longa franja e capas de álbuns que enfatizam a sua face, são vistas em produções da Lee como Entradas e Bandeiras (1976) e Build Up (1970). Além de sua sonoridade que alterna entre o jazz, o rock e o mambo.




Cinq minutes d'amour (1976)


 Best of (1989)



Sua derradeira fase musical se encontra na década de 80, impulsionada pelo seu novo parceiro musical e pessoal, Michel Berger. O seu ativismo em solidariedade a vítimas da fome na Etiópia também se destaca com a sua participação no projeto Chanteurs sans FrontièresEm 81, Tout  pour la musique traz o single de mesmo nome e vende quase um milhão de cópias. Sendo grande fã da rainha do jazz Ella Fitzgerald, France grava o álbum Babacar , com a faixa Ella, elle l'a algo como Ella, ela é a tal. Após alguns anos do lançamento do disco, que evidencia uma transformação significativa no seu som e visual, France se afasta de sua carreira musical devido à morte de seu marido e parceiro musical, e anos depois ela também perde seu filho. Embora tenha se despedido a décadas de singles que a tornaram uma das melhores artistas francesas, documentários e entrevistas mais recentes foram exibidos em TVs francesas a fim de homenageá-la. Acredito que o motivo pelo qual me aproximei muito mais do seu som do que de outras musas seja a sua ousadia em explorar diferentes melodias e o fascínio que a mudança de visual provoca. Abaixo listarei algumas das artistas que acabei conhecendo por conta da France. Este é meu último adeus a nossa eterna bonequinha de cera, que nos deixou sob o sol de seus cabelos loiros.




Tout pour la musique (1981) foi  produzido por seu falecido marido Michel Berger

Babacar (1987) foi também  produzido por seu falecido marido Michel Berger


Artistas que conheci através da France Gall



Nascida na Tunísia, Jacqueline Taïeb é uma das que mais inovaram dentre as cantoras yé-yé pois adotava diferente sonoridades em suas músicas. Seu álbum de 1967 ,7 Heures Du Matin traz algumas músicas que  remetem à musicalidade oriental como  em Bienvenue Au Pays e 7 heures du matin tornou-se um hit entre os jovens da época pois retrata a fantasia com astros do rock em ascensão como Paul McCartney. É possível  encontrar no Spotify outras faixas adicionadas ao álbum, como a versão em inglês do seu hit.



Christie  Laume teve seu nome artístico e talento notados por ninguém mais que Edith Piaf. Seu irmão Theo Sarapo e Piaf eram casados e fomentaram a produção de seus álbuns até a morte de ambos. La musique et la danse traz faixas que protagonizam a mulher e seu movimento de emancipação como em Une Fille Libre


Com apenas um ano de carreira, a francesa  Elizabeth Beauvais, conhecida como Clothilde lança um apanhado de faixas que variam entre pop e garage rock, sem o toque romântico de outras cantoras de seu tempo, no álbum  French Swinging Mademoiselle. Fallait Pas Écraser La Queue Du Chat foi sucesso em vários países da Europa, como na Espanha. 


A egípcia Gillian Hills transitou em vários meios no mundo das Artes. Lançou diversos EPs, como En dansant le twist e gravou com Serge Gainsbourg. Além disso, fez pequenas participações em filmes britânicos como Blowup (1966)  de  Michelangelo Antonioni e  A Clockwork Orange (1971) de Stanley Kubrick. Logo após sua participação neste último, ela embarcou na carreira de ilustradora, produzindo a famosa capa do romance A Cor Púrpura de Alice Walker. 





France Gall em diferentes momentos 



   
Com Serge Gainsbourg em 1966

Em sua casa em Paris por volta de 1965


Com Michel Berger em 1976 performando  Si l'on pouvait vraiment parler


France Gall na década de 80

sábado, 30 de dezembro de 2017

Riot Grrrl: A Representação Feminista através de 5 Álbuns

Revolution Girl Style Now é um álbum demo lançado pela banda Bikini Kill,
 a pioneira do movimento Riot Grrrl, em 1991


Bikini Kill, Bratmobile, Sleater-Kinney, Lunachicks e 7 Year Bitch são algumas das bandas formadas inteiramente por mulheres que encabeçaram o movimento punk feminista Riot Grrrl. Desde o início da década de 90, o movimento, primordialmente propagado pelas membros da Bikini Kill, Tobi Vail e Kathleen Hanna, rapidamente se consagrou em diferentes partes do mundo. Suas ideias versavam sobre autonomia do corpo feminino, a hipocrisia de homens brancos que conseguem o que querem, a diversidade sexual, entre outros temas que têm sido politizados especialmente sob forma de música.Algumas das principais bandas se desfizeram em meados dos anos 90, porém, foi justamente por volta dessa época que no Brasil, o movimento foi aderido por algumas bandas punk/hardcore formadas  por mulheres como Builimia, Dominatrix e Kaos Klitoriano. Por volta de 2010, o movimento ganhou um novo boom  de bandas, inspiradas por seus primórdios, mas que adaptaram suas temáticas a um contexto social atual, ainda necessitado de vozes políticas femininas.Anti-corpos lança o EP Meninas Para Frente em 2012 e em 2014, o álbum Contra Ataque. Enquanto que em Seattle, o trio Childbirth lança em 2015, Women's Rights, trazendo temas feminista de forma sarcástica. Por conta da ainda relevância do rock feminino no engajamento político, listei abaixo cinco álbuns que não são muito abordados, mas que foram inspiraram no movimento e inspiram muita gente tanto na esfera nacional quanto na internacional. 

1. Weaponry Listens to Love- Huggy Bear   (1994)




 Huggy Bear é a maior representante Riot Grrrl da Inglaterra. Com uma line-up dividida entre os dois gêneros, a banda permaneceu ativa apenas por três anos, 1991-1994, porém durante o curto tempo em que produziram discos e EPs, eles abordaram problemáticas voltadas especialmente ao público adolescente. Taking The Rough with the Smooch foi lançado pela gravadora independente e de cunho esquerdista, Kill Rock Stars, em 1993. Foi o trabalho mais comercial da banda, consagrando a faixa Her Jazz como hino feminista. O motivo o qual a banda voltou-se ao público jovem se reflete na ausência de uma cena politizada na Inglaterra. A fim de conscientizar a geração que consome o indie britânico sem nenhum tipo de ideologia, suas músicas traduziram de forma singular, temas como a obesidade, o suicídio, a automutilação e garotos que usam meninas em seu favor. ''Boy/girl revolution tease (You lied to me) '' em Her Jazz  fala sobre a opressão masculina nas cena punk da década de 90. Sob o falso pretexto de anarquia e de ser contra opressão estatal, a inserção feminina e de outras ditas minorias são subjugadas. A prioridade do movimento Riot Grrrl era eliminar a segregação de gênero, raça e sexualidade existente na cena, sobretudo nos shows.

This is the sound of a revolution                                
Post tension-realization 
This is happening without your permission
The arrival of a new renegade
Girl/boy hyper nation!

Esse é o som de uma revolução
Pós tensão-realização
Isso está acontecendo sem a sua permissão
A chegada de novos renegados
Hiper nação de garota/garoto!

No ano seguinte a banda lança Weaponry Listens to Love, em que lida melhor com temas diversificados. Enquanto o anterior focava na conscientização de um movimento político feminista, esse é composto pela sua agenda política. A sua primeira faixa Immature Adolesence fala sobre a punição violenta sob os jovens quando protestam pacificamente contra algo. 16 and Suicide retrata jovens que são institucionalizados sem alguma perspectiva de onde ir e do que fazer, acreditando que o suicídio é a resposta. Já For Insecure Offenders, a minha preferida do álbum, ainda se faz atual, pois é sobre a prática do bullying. Your sexual history means nothing destaca a ofensa sexista e homofóbica sobre a sexualidade de mulheres e gays. 
A princípio, as músicas do Huggy Bear são difíceis de destrinchar, porém, quando ganham significado é possível notar seu teor atual, uma vez que os temas extraídos dela ganharam recente projeção e alguns ainda são vistos como tabu na sociedade. 




2. Demo Tape- Cosmogonia (1998)

Somos mulheres não apenas corpos; 
Temos cérebros, não apenas seios; 
Somos mulheres não utensílios; 
Fazemos cultura não apenas filhos
( Trecho da faixa Feminilidade)

Banda brasileira formada só por mulheres, Cosmogonia esteve ativa por mais de uma década, e entre diversas formações, lançou dois álbuns demo. O de 1998 contém poucas faixas mas todas são altamente politizadas. Vida Igualitária  versa sobre uma concreta realização da igualdade de direitos e de liberdade entre homens e mulheres. TV Inculta remete à crítica apontada pela banda  As Mercenárias no álbum Cadê AS Armas de 1986, sobre a alienação de pessoas por diferentes setores, especialmente a TV.
Você não enxerga a maldade.
Daquela falsa realidade.
Que entra em seu lar pela TV
E não se parece com você.
( Trecho da faixa TV Inculta)

As outras faixas são igualmente relevantes e atuais, mostrando o potencial das brasileiras em usar a música como instrumento político. 


3. Oh sí más, más- Las Ultrasónicas (2002)




Las Ultrasónicas é um grupo de garagem rock punk formado em 1996 na Cidade do México.Seu álbum Yo fui una adolescente terrosatánica firmou a banda na cena undergound mexicana. Sua música vai desde  covers do Stooges e Black Sabbath a músicas que retratem o machismo, como em Luxor y Mohawk. Nessa faixa, o cara punk se utiliza do estilo para conquistar uma garota e depois deixá-la. Em 2002, o grupo lança Oh sí más, más com letras mais engajadas, a começar pela capa do álbum. Que Grosero se tornou o grande hit das garotas, e chama atenção sobre namorados que se comportam como idiotas '' que bruto y que grosero  te perdono por que se que eres un pobre pordiosero '' '' que rude e que grosso, te perdoo porque é um pobre sujeito''; No Quiero Un Novio já implica a autonomia das próprias escolhas, enquanto Vente en Mi Boca remete à autonomia sexual assim como Bikini Kill fez em I Like Fucking. Las Ultrasónicas provou à sociedade altamente patriarcal do México, que meninas jovens podem ter a liberdade de criticar o sistema em um lugar que ocupa a décima sexta posição em taxa de violência doméstica do mundo. 



4. Total Exposure- Las Kellies (2013)


Muito pode ser dito sobre o grupo argentino Las Kellies. Com 3 álbuns lançados, as meninas já gravaram músicas em mais de 5 línguas, incluindo português. Suas músicas têm referências de vários estilos musicais. Em Total Exposure é possível identificar um pouco de samba em Post Post, uma forte influência de bandas como The Raincoats e The Slits, destaco Golden Love. A diversidade sonora do disco é relevante uma vez que temos a representação latina numa projeção internacional. Além disso, grande parte das faixas protagonizam mulheres em diferentes histórias, com intuito feminista ou não, elas se fazem importante visto que fogem  à limitação de temas cantados por mulheres, como a devoção romântica ao homem, assim como a banda L7. Em Typical Bitch é possível denotar uma resposta atual à canção Typical Girls do grupo post-punk The Slits, que décadas antes cantou sobre os estereótipos femininos; Na versão das Las Kellies a mensagem é de que as mulheres devem fugir desses lugares em busca do próprio destino. 


5. Kill The Sexist!- Pussy Riot (2012)
A banda russa de punk rock e o grupo de ativistas políticos se tornaram um símbolo contra as políticas autoritárias do governo de Vladimir Putin. Em 10 minutos de som, as Pussy Riot libertam a sua fúria contra um governo que inibe a mulher de protestar a favor de seus diretos, um governo que as aprisionaram em um calabouço medíocre por anos. O trio que deu imagem ao grupo encapuzado, se tornou conhecido após performar a faixa mother of god, putin put! na catedral de Moscovo e serem presas por profanação. Pois bem, isso não foi suficiente para sufocar o ativismo feminista na Rússia. Pelo contrário, milhares de pessoas, incluindo artistas como Madonna, saíram nas ruas e nos palcos a favor da sua libertação. A Rússia ainda é um país de nacionalismo extremo e sexista. As meninas do Pussy Riot, hoje soltas, voltaram-se à música pop, mas ainda repleta de críticas irônicas ao poder estruturalizado na Rússia. 







sábado, 23 de dezembro de 2017

Crítica: 3 Women (1977)

Sissy Spacek como Mildred "Pinky" Rose
 e  
Shelley Duvall  como Mildred "Millie" Lammoreaux em Três Mulheres (1977)


O  norte-americano Robert Altman, consagrou-se como um dos mais controversos e singulares cineastas do seu tempo. Seus trabalhos fugiam a convenções, à dinâmica narrativa clássica de Hollywood. Em 1977, Altman lançaria aquela que seria uma das suas melhores obras. Três Mulheres surgiu a partir de um sonho que ele teve com as protagonistas do filme, Sissy Spacek (Carrie, a Estranha) e Shelley Duvall (O Iluminado) em um lugar desértico da Califórnia. Para construir o seu filme, o diretor utilizou referências também oníricas e contou com a improvisação de suas protagonistas para desenvolverem suas personagens. O resultado desse trabalho distinto no cinema hollywoodiano do século XX é um amplo leque de análises. Para entender melhor porque Três Mulheres  é uma obra valiosa, o telespectador deve se desprender da linguagem objetiva cinematográfica. Por apresentar uma lógica onírica, somos mergulhados no mundo do sonhos, com simbolismos e pouco espaço para uma racionalização imediata. É uma experiência única de como a subjetividade permeia o mundo de três mulheres opostas, que se fundem, se estranham e se unem, formando uma só. 
A primeira mulher a que somos apresentados é a imatura Mildred, que adota Pinky Rose como um pseudônimo compatível com a sua personalidade ingênua. Ao chegar na cidade desértica, ela procura uma vaga de emprego em um spa para idosos. Sua guia é a profissional Millie Lammoreaux, que curiosamente tem o mesmo nome que a jovem iniciante, porém o modifica a fim de estabelecer um  status quo, construído ilusoriamente com base numa sociedade consumista e voraz, que centraliza o homem como o espelho do poder e sucesso. Sendo assim, Millie fala incessantemente sobre como conquistou homens poderosos, e ninguém a ouve, a sua inadequação pode ser percebida por conta de sua beleza não padrão e subentendida quando sua longa saia constantemente fica presa na porta do carro sem que ninguém a note. Porém, Pinky Rose é um tanto inexperiente e assim, se deslumbra com tudo sobre a vida de Millie. As colegas de trabalho logo de tornam colegas de quarto, e é a partir desse convívio que presenciaremos um trabalho enigmático com personalidades efêmeras, que se estruturam e se desestruturam em simbolismos. 
 As duas mulheres se mudam para um apartamento, cujo proprietário, Edgar Hart (Robert Fortier) é um ex-cowboy e típico estereotipo do que se convenciona como homem viril, e a sua esposa grávida, Willie (Janice Rule) é uma artista local. Willie passa o dia trabalhando numa pintura mitológica de dois seres femininos lutando com um terceiro no piso da piscina do apartamento. Esta imagem aparece constantemente ao longo do filme, como se fosse uma representação repetitiva de algo dentro de um sonho. A relação entre Pinky e Millie é como de irmãs. Pinky se comporta como caçula ao ler o diário de Millie quando está ausente e ao pedir roupas emprestadas. Millie se mostra incomodada com o comportamento infantil de Rose e acredita que seus planos não dão certo por conta de sua presença. Quando as duas saem para o bar de Edgar e Willie Hart, estilo western, elas conversam sobre a misteriosa Willie. Seu olhar pávido e seu silêncio nos instigam a entender a sua relevância na vida das outras mulheres. Quando seus olhares se encontram, Willie parece conhecer muito sobre Pinky e Millie do que elas sobre aquela. Edgar demonstra ser então, o que vai unir as personagens. Ele tem um caso extraconjugal com Millie durante a noite, enquanto se encanta por Rose. No mesmo bar, as três praticam tiro ao alvo, mas apenas Millie e Pinky são assistidas por Edgar, traduzindo a maturidade e independência  de Willie em relação ao seu marido. 



Pinky Rose

Millie Lammoreaux

Willie Hart


Millie chega ao seu limite com Rose e  a expulsa do seu apartamento. A jovem então, joga-se da varanda para a piscina e o filme ganha uma reviravolta. Ao se recuperar do coma, Pinky assume outra personalidade, similar a de Millie, adotando seu nome original, Mildred, porém, mais sexualizada e notada por todos ao seu redor. Seu novo estilo de vida é o que Millie idealizava. Podemos interpretar esse plot twist  como o amadurecimento da personagem, que se funde à aquela que representa o espelho a se seguir. Assim como acontece em uma família, quando uma irmã adota traços da mais velha. Porém, as atitudes de Pinky, agora Mildred, são ainda inconscientes, ao não reconhecer a sua vida anterior. Tal aspecto revela uma característica dos sonhos, quando assumimos particularidades independentes de um passado. Outra analogia que foi trabalhada de forma exemplar é a de que Mildred representa o id, por exibir tendências instintivas (toma-se como exemplo quando ela se permite tornar objeto sexual) , Millie é o super-ego, pois suas condutas obedecem valores morais, reprimindo o que Mildred se tornou, ou seja a realização do seu id. E por fim, Willie é o ego, pois ela intermedeia os impulsos do Id,  é mais realística e madura, é como se Willie assistisse em Mildred a sua juventude. É também por esse motivo que não vemos Willie interagir fisicamente com as demais personagens até o final do filme. Millie e Pinky seriam as representações da imaturidade, do descontrole juvenil e o momento em que as três se unem é quando Willie dá luz a seu filho, simbolizando o início de uma nova fase nas vidas de todas elas, que acabam morando juntas e desempenhando papéis de mãe e filhas. O ego de Willie foi capaz de assumir o controle total de si mesma, e isso fica mais evidente quando sabemos que Edgar está morto. As amarras que ele atribuiu na vida de sua esposa são reflexo da sociedade patriarcal que submete a mulher a não pensar por si mesma, e a ser um mero objeto de controle masculino, encolhendo suas possibilidades de se moldar fora das amarras masculinas. Willie externiza as mulheres que viveu a fim de dar o tiro certeiro para uma vida em que possa ser dona de si mesma, e sem que seu passado a perturbe nesse novo caminho.

sábado, 16 de dezembro de 2017

Crítica: Belle de Jour (1967)




Em comemoração aos 50 anos da obra francesa Belle de Jour, ou Bela da Tarde, que para sempre será a minha predileta, dedico o post à grandeza que ela representa. Durante a sua reentrada na cinematografia francesa, o cineasta espanhol Luis Buñuel desvela a natureza profunda da pequena e dominante burguesia. Suas elipses e referências oníricas advêm de seus primeiros trabalhos, que o consagraram como líder avant-garde do surrealismo no cinema. Em 1929, Buñuel e o pintor também espanhol, Salvador Dali, dirigem o maior representante do gênero, o filme O Cão Andaluz. O cineasta pedia para que não se buscasse um sentido em suas obras, e quando nos familiarizamos com elas, percebemos que suas alegorias não buscam uma explicação única, chave, para desvendar o filme. Elas são lançadas a fim de provocar o telespectador e desafiar o seu lugar de conforto. Porém, tendo a ver ou não com a sua crítica pontuada na hipocrisia burguesa, sua riqueza de elementos compositivos resultou em um estilo próprio, ''buñuelesco''. A Bela da Tarde talvez simbolize a mais bem elaborada obra de sua derradeira fase em vida no cinema, uma vez que traz em seu centro, uma mulher. Outros três longas da época já foram resenhados aqui no Blog como: El Ángel Exterminador (1962) ; Cet obscur objet du désir (1977) ; e Tristana (1970) . Este último, assim como  Belle de Jour, também protagoniza a mais gélida e elegante entre as atrizes francesas, Catherine Deneuve. Ambas apresentam comportamento ambíguo, um olhar distante e desafiam convenções morais. Na abertura da obra de  67, a jovem Séverine e seu esposo Pierre (Jean Sorel) chegam ao seu luxuoso castelo de carruagem quando este a diz que a ama mas reclama da sua frigidez. A fim de puni-la, Pierre demanda que os cocheiros a chicoteiem e a expressão inicial de dor dá espaço a de prazer quando ambos começam a se aproveitar de seu corpo. 
Séverine desperta, e o episódio se revela, na verdade, um pesadelo, ou seria um sonho?                   
 O casal dorme em camas separadas e por meio de um diálogo, e mais a frente, descobrimos que ela é virgem. Durante o dia, Pierre trabalha como médico, e à noite, os dois costumam sair com um casal de amigos. É a partir deles, especialmente de Henri Husson (Michel Piccoli) que Séverine tem conhecimento preciso de um discreto bordel de luxo. Nossa protagonista não entende a sua vontade de ir ao bordel, mas se sente compelida a adentrá-lo. Mantido pela Madame Anaïs (Geneviève Page) Séverine se mostra relutante a deitar com seu primeiro cliente. O seu olhar distante e sua incerteza não nos aproximam de seu estado de mente. Um cliente japonês aparece com uma caixa cujo som e conteúdo  são desconhecidos. O que acontece quando a porta se fecha e ela fica a sós com o cliente também, só quando vemos uma mancha de sangue na coberta que nos aproximamos um pouco do seu mundo. Bela da Tarde é o seu pseudônimo no bordel uma vez que à noite ela cumpre o papel de dona de casa amável. Ao passo que Séverine se molda ao papel de prostituta,  vinhetas simbolizam abuso infantil e a não corroboração com preceitos religiosos e moralistas. Seria a transgressão da mulher branca e burguesa fruto de um trauma anterior?


Catherine Deneuve em seu papel mais emblemático em Bela da Tarde (1967) 

Não há como afirmar tal questionamento, pois seria a resposta mais convincente. O valor identitário da mulher na época que a obra se insere,configura-se como o romântico ideal burguês. A sua transgressão há de ser uma resposta a algo que a condicione e não simplesmente uma escolha independente. Analisar o cinema de Buñuel é fugir a convenções, a partir do uso das mesmas. É confundir-se no seu retrato do real e fictício uma vez que não sabemos de que ordem partem essas vinhetas.Seriam elas sonhos, projeções propositais  ou memórias vivenciadas pela protagonista? O que podemos afirmar ao certo é que estamos diante de uma mente perturbada. A integralidade refletida na mulher burguesa é fragmentada em mundo masoquista, de classe inferior e a busca pela sua própria forma de prazer, caracterizando uma nuance feminista na personagem. Embora os bordéis se configurem como espaço patriarcal, em que a mulher serve de objeto para o homem, Séverine o enxerga como a realização de suas fantasias e depende dele somente para tal fim. Quando analisamos o escopo da obra, concluímos que  A Bela da Tarde vai além dessa questão. A exploração da sexualidade feminina, ainda que seja de uma parte privilegiada, se dá em diferente interpretações e é fomento para uma discussão a que tanto se impõem tabus na nossa sociedade. 
Nos deparamos igualmente com certas fantasias sexuais masculinas as quais ela tem  o poder de julgar e de se submeter. A dualidade é o ponto alto da obra. Quando Henri, amigo do casal e que insiste em flertar com ela, descobre a sua vida dupla, ameaça delatá-la ao seu esposo. Na sequência, um cliente e amante possessivo e agressivo, a persegue e atira no seu marido. Debilitado, Pierre fica completamente dependente de Séverine. Henri retorna a ameaçá-la e conta o que sabe a ele. Se antes, o sentimento de culpa lhe dava prazer, agora que não há mais segredos, retornamos à cena inicial do filme. A carruagem se aproxima do castelo,dessa vez, sem o casal. Pierre que se encontrava na cadeira de rodas, levanta e abre um diálogo trivial com sua esposa. Buñuel emprega sua ambiguidade por todo o filme nos deixando um leque de interpretações. 
Assistimos à Bela da Tarde como ela julga seus clientes e suas companheiras de casa. Quando ela observa, através de um pequeno buraco na parede, uma prostituta experiente executar uma fantasia de um cliente a qual ela não foi eficaz, ela pergunta como alguém pode ser tão baixa. O julgamento, ora silencioso, ora externizado que ela faz dos personagens, define o nosso papel como telespectador passivo ou ativo. Somos instigados  a ir além , assim como Séverine foi, do lugar convencional. Sendo assim, a obra que completa 50 anos em 2017, explora a subjetividade de um inconsciente reprimido por normas sociais e moralistas e que busca no sexo não apenas o prazer carnal, mas também o amoral, o de reisignificar a  sua perversa liberdade.











Crítica: The Trouble with Angels (1966)




De acordo com um recente estudo da Universidade de comunicação e jornalismo,USC Annenberg, localizada em Los Angeles, mulheres ainda são uma minoria no mundo cinematográfico. A partir da análise de 800 filmes, que foram sucessos de bilheteria entre 2007 e 2015, pode-se concluir que a representatividade de gênero, raça, LGBT, e de deficientes está atrasada diante das mudanças sociais no plano real. Ainda observou-se que apenas 4.1% dos cineastas contratados para tais filmes eram mulheres. Sendo assim, é importante enaltecer a presença da mulher no cinema. A situação nas décadas de 40 e 50 era ainda pior. A atriz clássica de Hollywood, Ida Lupino era a pioneira da desta última. Entre seus trabalhos na nuance cinematográfica, destacam-se seus filmes Noir, e também a humanização de seus protagonistas, inclusive de homens. Ida também retratou temas tabu no cinema, como o estupro em Outrage (1950). Neste post, discorrerei sobre uma de suas obras que traz no seu corpo, um elenco 100% feminino e repleto de representatividade feminina positiva. The Trouble with Angels, ou Anjos Rebeldes (1966) conta a história de duas garotas, Mary Clancy (Hayley Mills) e Rachel Devry (June Harding) que vão criar um forte laço de amizade em um internato católico. As duas têm como passatempo predileto pregar peças nas freiras. Além de fumarem cigarros e charutos escondidas no sótão e no no banheiro. A reverenda da instituição é a que sempre flagra as meninas no ato e as envia, como punição, para a louça suja. Interpretada por Rosalind Russell, a reverenda não é tão severa quanto esperamos. As freiras em geral, corroboram para o tom cômico do filme. Uma delas dorme profundamente o tempo inteiro, enquanto outra não percebe o quão ruim a banda das meninas soa porque tapa os ouvidos completamente com algodão.




Por trás da rebeldia das garotas, revela-se uma ausência dos pais, que quando acionados devido ao comportamento delas, demonstram uma preocupação maior com o seu status quo. Apesar da jovialidade, Mary e Rachel mostram-se cientes da repressão de suas famílias em realizar seus anseios. Embora a instituição seja reflexo do conservadorismo, é nesse espaço que as meninas buscam sua autonomia, a sororidade presente não só entre elas, como também entre as freiras é uma representação positiva uma vez que a rivalidade feminina e sua dependência em um outro alguém, normalmente um homem, têm se firmado como papéis limitativos para as mulheres. É com base na confiança, e no exemplo de outras mulheres que Rachel e Mary despertam sua autonomia, na tentativa de novos caminhos, possíveis de erros e acertos, mas que não se subordinam àqueles determinados pela sociedade patriarcal. No entanto, questiona-se a decisão de Mary em permanecer no convento. Visto que ambas garotas afirmam ser progressistas ao longo do filme, por que uma delas decide corroborar com uma instituição conservadora? Temos que tomar cuidado quando tentamos colocar alguma mulher no lugar dela. Há uma cena em que ela observa atentamente o grupo de feiras unidas, talvez a segurança que essas mulheres transmitem ao contrário do mundo a fora, altamente moralista e sexista, o qual ela poderia não estar preparada. O convento é somente formado por mulheres de diferentes realidades que vivem em harmonia entre si, um espelho muito mais benéfico do que a realidade de Mary. Seu pai banca mulheres brancas e ricas e a impedia de fazer o que queria.

Da esquerda para a direita:June Harding (Rachel),Hayley Mills(Mary)
 e Rosalind Russell (Reverenda)


Ida Lupino consagra uma comédia sobre mulheres que não se baseia em estereótipos, mas que foca na sororidade entre mulheres, no seu amadurecimento e independência em relação a ao sujeito masculino, não se colocando no lugar de objeto. O filme foi rechaçado pela crítica, porém se tornou um clássico cult  entre os fãs do gênero e da cineasta. Divulgar uma obra como Anjos Rebeldes, não só apoia a atual campanha a favor de um maior reconhecimento da contribuição feminina para o mundo das artes, mas como também ajuda a romper com a normatização dos seus papéis. Além de permitir uma maior exploração de suas identidades. 






quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Crítica: River of No Return (1954)



Dirigido por Otto Preminger, River of No Return ou O Rio das Almas Perdidas é um filme de 1954 que merece uma análise voltada à questão dos esterótipos. Pertencente ao gênero western e ambientado na metade do século 18, a obra ainda conta com  protagonistas interpretados por Marilyn Monroe e Robert Mitchum. Enquanto Monroe encarna a cantora sensual de bares apenas frequentados por homens, Kay, Mitchum está no papel de um homem viril que assume a paternidade de seu filho somente por causa da morte de sua ex-esposa. Kay é noiva de Harry, um apostador que a promete uma vida de luxo após dizer que ganhou uma mina de ouro em um jogo de poker. Os dois embarcam numa jangada em um rio localizado em Idaho, cujo apelido dá nome ao filme, em destino à prefeitura da cidade para conseguir a posse da mina, porém, algo dá errado e eles são socorridos por Matt (Mitchum). Kay e Matt já haviam se conhecido antes quando ele e seu filho estavam em um evento em que ela performou. O seu noivo tem sede de poder e com uma arma, ameaça tomar o cavalo de Matt a fim de chegar à cidade mais rápido. Ele não se importa em deixar Kay para trás, e ela acredita que seu amante voltará em sua busca. Matt promete vingança sobre o ato de Harry e se encontra sob constante objeções da apaixonada Kay. Um sinal de fumaça no alto de uma colina indica presença de índios nativos. É importante ressaltar a racista representação de índios nativos no cinema hollywoodiano. Retratados homogeneamente como violentos, ignorantes, e inimigos dos brancos, em Rio das Almas Perdidas, eles tocam fogo na cabana de Matt, o que os leva a fugir para a cidade utilizando a jangada. Vemos Matt ensinar ao seu filho como manusear uma arma de fogo contra os inimigos, simbolizando o preconceito e a concepção de masculinidade  transmitidas de geração para geração. O ataque de índios montados em seus cavalos, com flechas e do homem branco com sua arma de fogo, protegendo a frágil mulher e criança, naturalizou a imagem deste último como o herói americano. 
Ao longo da viagem e das paradas durante a noite na floresta para descanso, observamos mais demonstrações das construções patriarcais no longa. Apesar de ficarmos deslumbramos com o talento de Marilyn para música, ao ouvi-la tocar violão e cantar, a sua imagem de símbolo sexual é forçadamente trabalhada em um contexto que os personagens estão viajando sem condições de higiene e que têm que lutar pela sua sobrevivência. A ideia de que a mulher tem de se manter feminina, e por feminina entende-se  as concepções de aparência física e de comportamento que nos são ensinadas, é vista quando Marilyn mantém seu penteado, sua maquiagem e submissão ao personagem masculino diante de condições adversas de natureza e que testam o psicológico humano, como quando um tigre os surpreende no meio da noite.
O relacionamento entre Kay e o filho de Matt é o de uma mãe por necessidade, uma vez que se configuram papéis de gênero esperados naquela situação. O garoto fica sob os cuidados de Kay, enquanto Matt se utiliza da sua força masculina para alimentar, proteger e decidir por todos. Em uma cena, a personagem de Monroe adoece e sua vulnerabilidade é aproveitada por Matt, que tenta abusá-la. A sua resistência é espelho da imposição do seu lugar de amante como forma de agradar o homem com quem está acompanhada. 
Quando os personagens conseguem chegar na cidade, Kay encontra o seu noivo, que surpreso, não demonstra afeto. Harry não aceita a ameaça de vingança de Matt e tenta atirar nele. O seu filho acaba defendendo o pai com uma arma. Desolada, Monroe tenta carreira no bar local, mas Matt invade uma das suas apresentações e a carrega imprudentemente no seu ombro. Este fim valida a sociedade patriarcal da época, em que o homem detinha o poder ilimitado sob suas escolhas vistas como morais. A incivilidade dos índios, a submissão da mulher, a virilidade do homem branco são estereótipos reforçados no filme e que apesar disso, não o considero ruim. Sua fotografia é esplêndida, as atuações igualmente, o post em si buscou questionar as condições sociais de uma época. Não devemos deixar de assistir  filmes de épocas passadas por apresentarem problemas sérios de racismo e sexismo. É importante olhar obras como essas sob  duas direções: a de crítica e a de fã de cinema. O que não podemos desempenhar, como telespectador, é uma passividade diante de conjeturas  que subjugam minorias, como é muito mais comum e naturalizado. . 



                   Marilyn Monroe poderia ter seu talento multi-artístico desenvolvido nas telas se não fosse pela propagação do sexismo em Hollywood.

O romance sujeitado entre os protagonistas de Rio das Almas Perdidas
 é mais um reflexo da cultura machista no cinema.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Crítica: Daisies (1966)



Por várias décadas do século XX, a  Tchecoslováquia, atualmente República Tcheca e a Eslováquia, foi governada sob o regime comunista, sendo a sua tentativa de democratização sufocada pelo golpe da União Soviética na década de 60. Durante esse período, os trabalhadores,os jovens e outras partes da população de Praga sentiam o efeito da crise econômica com as novas decisões na constituição. A desilusão com o regime político vigente leva a uma resposta no mundo da Arte. A New Wave Tchecoslováca, como ficou conhecido esse período, contava com diretores que objetivaram conscientizar a sociedade sobre a opressão política que estava vivendo sob mesmo antes do golpe. A cineasta Věra Chytilová responde veemente com a obra Daisies (As Pequenas Margaridas) em 1966. Suas protagonistas femininas reinventam seu espaço essencialmente formado pela burguesia conservadora. Cada palavra e gesto delas simbolizam protesto. As adolescentes buscam uma afirmação, a sua existência incessantemente e as alegorias que Vera emprega transforma sua obra numa peça única em dimensões sobre papel da mulher na sociedade, no cinema, sobre termos de fotografia cinematográfica e de oposição. Ao debater sobre As Pequenas Margaridas, é impossível não qualificá-lo como uma obra a frente de seu tempo. 
Enquanto uma das meninas marca encontros com homens mais velhos em restaurantes caros, sua amiga, ou irmã, como se referem uma a outra, aparece e devora toda a comida que pode. No fim das contas, nem uma se sente saciada nem a outra se compromete ao senhor que a acompanha. As jovens se colocam em posição política de quem se sente incompleto, inconformado com as instâncias da sociedade na sua  incapacidade de realizá-las. Vera idealiza um mundo em que elas possam se sentir livres para experimentarem outras saídas. Os tons coloridos que se alteram ao longo do filme, é a voz da diretora ao ela mesma se libertar das formas impostas sob o cinema.
As garotas brincam com colagens, recortes de revistas, de seus corpos. Ingerem alimentos de conotação sexual, riem dos homens que se declaram apaixonados. Depravadas, é o que elas se perguntam ser. Quando na verdade elas estão internalizando um discurso que se propaga no tocante a suas atitudes. A desconstrução do seus corpos, do que se espera de garotas da sua idade, e o ar de não se importarem com o julgamento da sociedade implicam uma representação do feminismo. Porém, assim como Vera, as protagonistas arriscavam a ruptura com espaços tradicionais que culminam no seu sentimento de culpa, de punição. Quando uma mulher avança e ela avança sozinha, ela será facilmente silenciada.




 Embora muitos classifiquem a obra como de cunho feminista, Věra Chytilová afirma que é individualista. A tentativa de homogeneizar a sociedade partindo de seus valores e preceitos políticos, impossibilitava a afirmação de identidades. Em um diálogo entre as protagonistas de Daisies, elas questionam porque ninguém as nota, elas existem sob o olhar uma da outra, pois juntas experimentam e reinventam o seu mundo, o qual a sociedade ainda não estava pronta para lidar com. O ápice da crítica de Chytilová acontece quando as meninas encontram um banquete aristocrata, antes da chegada dos convidados, e dançam sob a comida. As pequenas margaridas esmagam aquilo que remete à opressão político-social. Logo após o feito, ouvimos a voz de Vera conscientizá-las a repararem o estrago. Vestindo papéis de jornal amarrados com cordas no seus corpos,  elas tentam arrumar os pratos quebrados, a comida espatifada numa alusão ao controle da rebeldia, da fuga ao lugar que te pertence. Nós faremos tudo e nós seremos boas e bonitas, dizem as jovens, que obedientemente se portam submissas à voz preponderante, interpretada por Vera e na realidade, pelo governo autoritário vigente. 
O filme se inicia e finaliza com vinhetas de bombas explodindo, localizando o telespectador na atmosfera violenta em que a Tchecoslováquia se encontrava. O governo baniu Daisies  por conta do desperdício de comida, mas somos preparados a questionar qual era realmente o incomodo que o filme trazia.A obra de  Vera Chytilová não envelhece, não é despercebida porque ainda se faz presente a luta de mulheres pelo seu reconhecimento nas Artes, ainda vemos minorias em crise de identidade, sua fotografia ainda influência outros trabalhos, ou seja, temos que apreciar e divulgar sim este filme pela sua grandeza e singularidade.